9.10.09

Soneto à Schopenhauer

Sou navegante como os demais,
coração esquecido n'algum porto,
o olhar a procurar pelo conforto
de pedra cujo nome é cais.

Tão navegante sou, que trago assaz
a paz de cada fim de tempestade,
esperando encontrar felicidade
na tempestade ao fim de cada paz.

Em solo, no entanto, não há vento
capaz de balançar o pensamento,
mais cruel que todos os presságios.

Na segurança do atracadouro,
navegante nenhum é duradouro,
chama-nos sempre o risco dos naufrágios.

12.4.09

Metáfora do iludido



Sou todas sonhos de alegria ou tristeza

Os meus olhos são duas pedras raras,
roceiros fiéis de minhas searas,
cultivando-me ilusões de realeza.

Quando amanhece nas frestas do meu rosto
e afasto os sonhos pendurados na pestana,
o mundo e a ''solidez'' que tanto o engana
resvalam liquefeitos e eu sinto o gosto.

E assim arraso todos os terrenos,
entrego o solo a toda sorte de venenos
para asfixiar imagens enraizadas

É só os cílios se beijarem, todavia,
que dentro de mim em golpes de agonia
sinto o cravar de todas as enxadas.

9.4.09

Para Vovó:

Cosendo qual à colcha de retalhos,
com a mesma agulha que cerziu seu chão,
foi costurando nas linhas da minha mão
a segurança de todos os atalhos.

E eu, linha de crochê encomendado,
sigo o caminho que ela abriu em trilha,
como o seguiu um dia sua filha
e me apontou depois de o ter trilhado.

Sua vida, arsenal de alta costura,
remendada de alegria e de amargura,
faz da minha uma tira de algodão

Mero retalho em sua colcha de saudades,
que no inverno mais severo das idades
aquece mais que lã o coração.

5.4.09

A dor é uma idosa itinerante
que, provida de bengala e calma,
passeia um a um, de alma em alma
Com os olhos travessos de viajante.

Ao chegar, converte tudo em brasa,
dividindo conosco o nosso ar,
como se cada alma fosse o seu lugar
e cada coração, a sua casa.

Chega e se apossa, feito as inquilinas
Nunca vem sozinha, traz meninas,
que a seguem passo a passo nessas trilhas

Quando, enfim, junta toda a sua bagagem,
Tal como as mães de coração selvagem,
abandona em cada peito uma das filhas.

Maio de 2002

2.3.09

Noite de São João

Faço dupla com o luar
pra tocar seu coração,
nota solta nas vielas
da minha imaginação.

Cata-vento na pinguela
vai soprando a estação
O inverno dos seus olhos,
a fogueira aquece em vão.

Sua prece ilumina
meu varal de solidão
Vai quarando, por tabela,
minha sina de peão.

Cata-sonhos na janela,
cata a minha inspiração.
O meus olhos, cachoeira,
matam a sede do sertão.



Em parceria com Anthony Brito.
Mas junto a ele a palavra fica feia.
E tudo que o externa bruxuleia
A presença calada diz tudo.
Meu coração é como a estrada mansa,
onde os passantes deixam suas dores,
seus sonhos perdidos em tristes amores,
depois se vão, lotados de esperança.

Meu coração é uma estrada serena,
onde mora a quietude dos doentes
e o consolo que precisa toda a gente
e a amplitude pras almas pequenas.

Meu coração é uma mãe desesperada,
uma criança que foi abandonada,
cuja solidão não tem mais fim.

E foi assim, de viajante em viajante,
que apareceu um forasteiro errante
e desde então se fez dono de mim.

Junho de 2003
O mundo inteiro já nasce sambista.
O samba surge quando o coração, artista,
começa a batucada lá dentro do peito.

Acompanhando o som desse batuque,
de passo em passo, o corpo, num só truque,
responde ao coração num molejo perfeito.

A nossa voz foi feita para o samba
Surdo ou cavaco, qual roda de bamba,
com afinação se faz um bom proveito.

Quando a tristeza vem brincar e fica
O nosso pranto é o pranto da cuíca
a lamentar algum sonho desfeito.

Se um coração cansa da batucada
mundo desaba, lágrima escorre
e pros que ficam nessa mesma estrada

a dor que fere é um samba que acaba
a dor maior é porque um samba morre.

1.3.09

mar e ilha

Sou o mar quando ele está vazio
Sem naus, sem homens, sem nada
Sou imensa, profunda, pesada
Como o transforma o dia de mais frio.

Em que fica sozinho, na agonia,
sentindo em si a vastidão intensa
Eu sou o mar na escuridão mais densa
Tão extenso, tão sem companhia.

E vez ou outra sou a ilha, essa deserta,
pedacinho de terra descoberta
em meio à água navegada, impura.

Um dia, proporção exorbitante
N'outro, tão insignificante
Solidão não tem medida, tem têxtura.

Janeiro de 2005